Métodos quantitativos de recolha de dados – Parte II

Tendo por base a dissertação de Mestrado de Cidália Neto (2006) intitulada O papel da Internet no processo de construção de conhecimento, foram elencadas as seguintes questões:

São apresentados claramente os objetivos de investigação que presidiram à elaboração do questionário?

No geral, a autora Cidália Neto apresenta de forma clara os objetivos da sua investigação: primeiramente apresenta os objetivos gerais e, posteriormente, os objetivos específicos.

Objetivos gerais do estudo:

Verificar as condições de acesso à Internet (professores e alunos)

• Caracterizar a relação de professores e alunos com a Internet, numa perspetiva comparativa.

• Analisar as representações dos dois grupos, no que respeita à Internet e ao seu papel na sociedade, em geral, e na educação formal, em particular.

• Averiguar a forma como os alunos realizam uma pesquisa na Internet

Objetivos específicos do estudo:

Verificar a facilidade de acesso (ou não) à Internet.

• Verificar a frequência de acesso à rede.

• Apurar as razões de uma fraca navegação na Internet (se for o caso).

• Identificar os interesses que motivam o acesso à rede.

• Caracterizar a relação dos dois grupos com a Internet, em termos técnicos.

• Identificar as representações que os atores educativos têm acerca dos conteúdos presentes na Rede e sua organização.

• Verificar o grau de importância atribuída à Internet.

• Aquilatar o grau de confiança relativamente aos conteúdos que circulam na Internet.

Comparar as perspetivas e práticas dos dois grupos alvo.

Caracterizar a relação dos alunos com a Internet, sob o ponto de vista dos professores, em termos técnicos e cognitivos.

• Verificar se os professores ajudam os alunos nas suas pesquisas realizadas na Internet.

Contudo, concordo com a colega Laura Ferreira quando refere que alguns objetivos deviam estar mais claros, pois suscitam algumas dúvidas quanto à informação que se pretende obter, podendo comprometer os resultados da investigação.

De facto, a definição clara dos objetivos – gerais e específicos – é fundamental na orientação do trabalho de investigação e na operacionalização do mesmo.

São indicados os passos que estiveram subjacentes à construção do questionário? O questionário usado foi objeto de validação prévia?

As etapas na construção do questionário não estão claras, pois a autora apenas informa  que foram utilizados dois questionários (um para os professores e outro para os alunos), constituídos por questões fechadas e de escolha múltipla. Mais uma vez concordo com as críticas da colega Laura Ferreira, principalmente no que diz respeito à falta de informação sobre a fundamentação da escolha, da estrutura e da forma deste instrumento de recolha de dados.

Relativamente à validação prévia, a autora informa que submeteu uma primeira versão a 20 alunos e 10 professores. Contudo, não facilita qualquer informação sobre estes inquiridos, nem a forma e o contexto em que os inquéritos foram aplicados. A autora refere que foi necessário proceder à alterações no questionário, no entanto, apenas informa quais as questões que foram reformuladas, não informando sobre a reformulação propriamente dita.

Esta falta de acesso a informação relevante para o processo de investigação e a sua validação, podem, de facto, comprometer a fiabilidade dos resultados obtidos no estudo.

A amostra é claramente identificada? É indicado o método usado na definição da amostra? 

A amostra é identificada: professores (110) e alunos (350) do 3º Ciclo do Ensino Básico, pertencentes a escolas dos distritos do Porto e de Bragança.

Perante a informação cedida pela autora, depreende-se que foi definida uma amostra não probabilística, por conveniência, ou seja, recorreu a um método não aleatório. A seleção teve por base critérios de proximidade, no que diz respeito ao elo de ligação que possuía com alguns dos elementos nas escolas onde foi aplicado o questionário, e de facilidade, no que diz respeito à comunicação com os inquiridos (acesso à Internet).

Uma amostra com estas características, apresenta uma baixa representatividade da população e tal como refere Alda Pereira em Investigação e Métodos Quantitativos “a amostra representa-se a si própria”, não sendo possível a extrapolação dos resultados para o universo da população.

No capítulo da explicitação da metodologia usada há indicações sobre o modo de tratamento dos dados obtidos com a aplicação do questionário?

Mais uma vez, considero que a autora foi muito redutora na informação relativa ao modo como efetuou o tratamento dos dados obtidos com a aplicação dos inquéritos: “Os dados foram tratados e analisados tendo em vista os objectivos de investigação previamente definidos. Para análise estatística recorreu-se ao programa de computador Excel, sendo os resultados apresentados, sempre que útil, na sua perspectiva percentual.”

A autora faz uma apresentação estatística dos dados, tendo recorrido ao Excel, dando uma breve interpretação dos mesmos. Considero, por isso, que a autora recorreu quer à estatística descritiva, quer à estatística inferencial. Contudo, creio que a interpretação dos resultados é sobretudo descritiva. “A estatística descritiva consiste na recolha, análise e interpretação de dados numéricos através da criação de instrumentos adequados: quadros, gráficos e indicadores numéricos” (Reis, 1996: 15).

Fontes:

Morais, Carlos Mesquita. (2005). Escalas de Medida, Estatística Descritiva e Inferência Estatística. Consultado a 13 de julho de 2013. Disponível em https://bibliotecadigital.ipb.pt/bitstream/10198/7325/1/estdescr.pdf.

Quivy, R. e Campenhoudt L. (1992). Manual de Investigação em Ciências Sociais. Lisboa, Portugal: Gradiva.

Métodos quantitativos de recolha de dados – Parte I

Em Investigação e Métodos Quantitativos, de Alda Pereira, a mesma identifica as seguintes características nos métodos de recolha de dados de carácter quantitativo:

– associam-se ao paradigma positivista, o qual perceciona o mundo como sendo composto de factos observáveis e mensuráveis e de uma forma dedutiva procura encontrar relações de causa-efeito, não contaminadas pelo contexto;

– o investigador assume uma neutralidade objetiva, pois sendo exterior ao objeto/situação em estudo, não assume assunções pessoais, evitando enviesamentos;

– as hipóteses devem ser testáveis e ter uma natureza probabilística, as quais podem assumir-se como conceptuais (estabelecem uma relação entre variáveis), operativas (indicam as operações necessárias para a sua observação ou estatísticas (expressam a relação esperada em termos quantitativos);

– as variáveis, como fatores ou efeitos que intervêm num fenómeno em estudo, podem ser mensuráveis através de escalas, sendo classificadas em quantitativas (são expressas em valores numéricos reportados a uma unidade de medida ou de ordem) e qualitativas (expressam atributos ou categorias do sujeito ou da situação e podem ser dicotómicas ou politómicas)

– os resultados obtidos são generalizáveis a outros contextos, sendo utilizados instrumentos de recolha, nomeadamente questionários, testes, entrevistas e análise documental, que assegurem a replicabilidade dos estudos e a validade das conclusões;

– a amostragem apresenta-se como um fator decisivo na investigação quantitativa, pois dela depende a representatividade da população em estudo, podendo ser de natureza probabilística (a seleção dos sujeitos é aleatória e a representatividade é, à partida, elevada) ou não probabilística (a seleção dos sujeitos não é aleatória e tem uma baixa representatividade da população);

– a validade prende-se com o grau de certeza com que se fazem as inferências a partir dos resultados em estudo.

A investigação quantitativa recorre aos seguintes métodos:

– investigação experimental: manipulação de condições e posterior verificação do efeito causado por essa alteração,

– estudos quase experimentais: amostras não aleatórias,

– investigação correlacional: estudo de relações entre variáveis,

– investigação ex-post facto: investigação relações de causa-efeito,

investigação por inquérito: permite uma investigação descritiva ou uma investigação explicativa, recorre às técnicas do questionário e da entrevista estruturada, exige a definição rigorosa da amostra e o controlo da investigação.

Debruçando-me em particular sobre o inquérito recorro à apresentação do Grupo Metódicos com o título Métodos de Recolha de Dados (em Investigação Educacional).

Na elaboração do questionário, o investigador, respeitando três princípios – Neutralidade (libertar o inquirido do referencial de juízos de valor ou do preconceito do próprio autor), Coerência (respostas coerentes com intenção da própria pergunta), e Clareza (questões claras, concisas e unívocas) – deve seguir as seguintes etapas:

– na 1ª etapa deve-se delimitar a informação pertinente a escolher de acordo com os objetivos e a finalidade a que se destina, devem-se constituir as categorias e precisar os temas e a sua dimensão, deve-se adequar a extensão do questionário ao público alvo, sendo que o seu preenchimento não deve ultrapassar 45 minutos, sob pena de os inquiridos dispersarem a sua atenção e concentração;

– na 2ª etapa devem-se formular as questões, escolhendo qual o tipo de questões a ser aplicada(escolha fixa, de resposta livre, de facto ou de opinião, diretas ou indiretas (associativas ou projetivas) podendo ser misto); têm de ser curtas, claras e compreendidas pelos inquiridos, por isso, o vocabulário usado deve ser do conhecimento do inquirido e dominado pelo mesmo;

– na 3ª etapa as questões são sequenciadas, agrupadas e formatadas (quanto à estrutura e à forma), tendo em consideração que a ordem das questões pode ter influência no maior ou menor interesse de quem responde;

– na 4ª etapa, o esboço do questionário deve ser submetido a uma apreciação crítica e ser revisto;

– na 5ª etapa, finalizando o que se iniciou na etapa anterior, deve-se efetuar um pré-teste para testar a eficácia e a pertinência do questionário junto de uma amostra representativa da população em que vai ser aplicado o questionário;

– na 6ª etapa procede-se à redação da introdução e das instruções de preenchimento.

Cumpridas estas etapas, o questionário pode ser aplicado.

Como qualquer outro método, o inquérito apresenta vantagens e desvantagens, das quais destaco:

vantagens: anonimato das respostas, relação impessoal com o inquirido, quantificação dos dados.

desvantagens: a percentagem de questionários totalmente e bem preenchidos é reduzida, o indivíduo é uma unidade estatística (perda das relações sociais), a amostra pode não ser representativa da população em estudo.

Fontes:

Morgado, J. C. (2012). O Estudo de Caso na Investigação em Educação. Santo Tirso, Portugal: Defacto.

Quivy, R. e Campenhoudt L. (1992). Manual de Investigação em Ciências Sociais. Lisboa, Portugal: Gradiva.