Aplicação, análise e interpretação da entrevista

Após a aplicação da entrevista, a mesma foi transcrita e depois submetida a análise e interpretação. Nos documentos abaixo pode consultar estas três etapas do grupo Smashing Pumpkins.

transcrição_entrevista_grupo smashing pumpkins

Analise_de_conteudo_smashing_pumpkins

Analise_e_Interpretacao_de_Entrevista_Grupo_Smashing Pumpkins

Após a aplicação, transcrição e análise e interpretação da entrevista realizada, o professor José Moreira lançou algumas questões relativamente a esta fase do processo de investigação:

Que cuidados ter durante a realização da entrevista?

Morgado refere algumas sugestões e diretrizes a ter em conta durante as entrevistas (2012, p.75):

– nunca falar mais do que o entrevistado,

– demonstrar interesse pelas afirmações e pontos de vista do entrevistado,

– solicitar esclarecimentos suplementares sempre que for necessário,

– não emitir juízos de valor acerca das declarações ou posições assumidas pelo entrevistado.

De seguida, irei elencar algumas das orientações prestadas pelos colegas na sala de aula virtual:

– o planeamento prévio do tempo, do espaço e dos equipamentos a serem usados para a entrevista, pode prevenir a ocorrência de constrangimentos, como distrações ou ruído, e garantir a privacidade (José Fialho, Fábia Moreira, Cátia Carminé),

– antes de dar início à entrevista, o entrevistador deve apresentar-se e informar o entrevistado dos objetivos gerais da mesma, de forma a se sentir devidamente enquadrado (José Fialho, Cátia Carminé),

– o entrevistado também deve ser informado sobre a confidencialidade da entrevista, deixando-o seguro e confiante e a sua autorização deve ser solicitada sempre que a entrevista for gravada  (José Fialho, Cátia Carminé),

– não tentar induzir o entrevistado com manifestações verbais ou gestuais de concordância ou discordância das posições assumidas pelo entrevistado (José Fialho),

– manter o controlo da entrevista, fazendo intervenções no sentido de evitar divagações do entrevistado, as quais possam fugir do contexto e dos objetivos previstos, tendo sempre em atenção a linguagem utilizada (Fábia Moreira, Cátia Carminé),

Pouco mais tenho a acrescentar aos contributos dos meus colegas, mas apenas reforçar que um profundo conhecimento dos objetivos da entrevista e da investigação, do guião da entrevista e da sua organização, a par com a colocação das questões de forma clara e simples, são muito importantes para o sucesso da entrevista.

Como ultrapassar entrevistados pouco cooperantes ou muito divergentes?

Na posse das seguintes características – objetividade, gentileza, sensibilidade, empatia, flexibilidade, imparcialidade, capacidade crítica e interpretativa – o entrevistador terá condições para ultrapassar as dificuldades que lhe possam surgir durante a realização da entrevista, como é o caso de se deparar com entrevistados pouco cooperantes ou muito divergentes.

Quais as dificuldades sentidas em estabelecer/rever as categorias de análise?

Bardin (1995) citado por Morgado (2012, p.107) refere que “a técnica de análise de conteúdo adequada ao domínio e ao objetivo pretendidos, tem de ser reinventada a cada momento.” Assim, Vala (1999), igualmente citado por Morgado (2012, p.108), refere que independentemente da direção que cada investigador seguir deve ter em linha de conta um conjunto de operações mínimas:

– definição dos objetivos e do quadro teórico de referência

– contribuição de um corpus documental

– definição das categorias

– definição das unidades de análise (unidades de registo e de contexto)

– finalidade e validade

– quantificação

Tal como o professor José Moreira recomendou também Esteves, citado por Morgado (2012, p.110), sugere que “antes de se proceder à definição das categorias (…) se deve fazer uma leitura flutuante do material, ou de grande parte dele, de modo a que o investigador se aproprie da natureza dos discursos recolhidos e dos sentidos gerais neles contidos a fim de começar a idealizar o sistema de categorias que vai usar no tratamento.” Por isso, Morgado (2012, p.110) refere que para categorizar, primeiro temos que analisar a pertinência dos elementos para que sejam isolados e devidamente classificados e reduzidos. Posteriormente, os dados serão reagrupados por analogias a fim de servirem os interesses da investigação.

Segundo Morgado (2012, p.111), o objetivo de criar categorias,  é transformar o texto em unidades de significação, organizando os dados de forma lógica e resumida. Bardin (1995) citado por Morgado (2012, p.111) define categorização como “operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o género (analogia), com os critérios previamente definidos.”

A categorização pretende alcançar o núcleo central do texto da respetiva entrevista, envolvendo vários procedimentos que se baseiam em regras definidas. No sistema de categorização a identificação de subcategorias são conceitos que se apresentam numa ordem hierárquica inferior aos das categorias, ou seja as subcategorias são unidades mais específicas que por sua vez se apoiam nas unidades de registo, que segundo Carmo e Ferreira (1998) “o segmento mínimo de conteúdo que se considera necessário para poder proceder à análise, colocando-o numa dada categoria.”

São frases, expressões, palavras que servem para fazer a inferência do atributo a que essa unidade de registo se encontra relacionada. As unidades de registo são o mínimo conteúdo numa categorização, por sua vez as unidades de contexto constituem “o segmento mais longo de conteúdo que o investigador considera quando caracteriza uma unidade de registo, sendo a unidade de registo o mais curto.” (Carmo & Ferreira, 1998).

Segundo Esteves (2006), referido por Morgado (2012, p.112), pode-se proceder de duas formas distintas ao processo de categorização usando:

Procedimentos fechados (pré-categorização) – onde o investigador já tem categorias definidas previamente.

Procedimentos abertos (categorização emergente) – onde as categorias surgem do próprio material.

No caso do grupo Smashing Pumpkins, as categorias foram criadas a partir de procedimentos abertos, pois surgiram do material da própria entrevista. A maior parte das categorias surgiram dos objetivos delineados com o guião da entrevista, no entanto, após surgirem novas questões no decorrer da entrevista foram necessárias definir outras categorias. Contudo, este percurso não foi fácil, pois as dúvidas foram muitas e depois da categorização feita e entregue, teríamos feito alterações.

Como garantir que não estamos a sobrepor a nossa “voz” à dos entrevistados quando fazemos a análise?

Como refere Morgado (2012, p.113), “a relevância de qualquer investigação depende, essencialmente, da forma como o investigador analisa e interpreta os dados que recolheu”, os quais darão lugar às conclusões do estudo.

Respondendo à questão colocada, reconheço que ao lidar com dados qualitativos facilmente se pode cair na subjetividade, por isso, o investigador deve munir-se de instrumentos que lhe permitam fazer a análise e a interpretação dos dados da forma mais rigorosa possível. Nesta ordem de ideias, Morgado (2012, p. 114) refere que de forma a ultrapassar esta questão o investigador deve partilhar os dados com o participante, a fim de perceber a adequação e aferir a relevância, para que se compreenda que dados privilegiar ou eliminar.

Ainda o mesmo autor, alerta para “a necessidade de compreender os significados dos fenómenos em estudo na sua globalidade” (2012, p. 114), atendendo ao contexto em que ocorrem. Refere também que dominar os recursos e técnicas de análise e ter “estratégia analítica geral” ajuda a ultrapassar as dificuldades da análise.

Relativamente às estratégias de análise, de forma a combater a subjetividade que o investigador possa imprimir nos dados recolhidos, Yin (2005) referido por Morgado (2012, p. 115-116) refere três:

Fundamentar a análise dos dados em proposições teóricas (seguindo os pressupostos teóricos que originaram o estudo, ajudando na definição de prioridades);

Produzir explanações concorrentes (delinear e testar explicações concorrentes na análise dos dados)

Desenvolver uma descrição do caso (abordagem analítica baseada na descrição baseada na elaboração de uma estrutura descritiva com o intuito de organizar o estudo).

Fontes:

Carmo, H.; Ferreira, M.M. (1998). Metodologia da Investigação. Guia para auto-aprendizagem. Lisboa, Portugal: Universidade Aberta.

Coutinho, Clara. (s/d). O que é Análise de Conteúdo?. Consultado em 3 de junho de 2013. Disponível em http://claracoutinho.wikispaces.com/O+que+%C3%A9+An%C3%A1lise+de+Conte%C3%BAdo%3F

Morgado, J. C. (2012). O Estudo de Caso na Investigação em Educação. Santo Tirso, Portugal: Defacto.

Kvale, Steinar. (1996). InterViews: An Introduction to Qualitative Research Interviewing. Consultado a 14 de julho de 2013. Disponível em http://books.google.pt/books?id=lU_QRm-OEDIC&pg=PR13&lpg=PR13&dq=interviews+an+introduction+to+qualitative+research+interviewing+kvale&source=bl&ots=40fygCCmDm&sig=4kDWBAoZpSn-5wv5_BKypebSivw&hl=pt-PT&sa=X&ei=tQemUcbHFKjB7AaFroHwBw&ved=0CFsQ6AEwBA

Guião de Entrevista

Ainda no âmbito do Tema 2, foi proposto a construção, em grupo,  de um guião de entrevista do tipo semiestruturada a ser aplicado num estudo de caso sobre as representações dos professores do ensino básico/secundário, tendo por base as seguintes de investigação: O que pensam esses professores sobre as redes sociais, como por exemplo o Facebook, Myspace, Hi5, Twitter, etc? Como é que vêm a sua (hipotética/real) participação numa rede social? Que expetativas têm sobre o seu uso no ensino?

O grupo Smashing Pumpkins apresentou o seguinte guião de entrevista:

Guiao_de_entrevista_Smashing Pumpkins

Depois da análise aos outros dois guiões disponibilizados neste Tema 2, de facto, o guião de entrevista apresentado pelo grupo Pixies é o mais completo, pois dos objetivos gerais, os quais converteram em blocos temáticos, apresentou os objetivos específicos, dos quais resultaram as questões para o guião.

As orientações dadas para a realização da entrevista também foram fundamentais. Realço as seguintes: apresentação dos objetivos gerais e específicos, solicitação de consentimento ao entrevistado para gravação da entrevista, assegurar a confidencialidade da mesma, condução da entrevista de forma semirigida, cumprimento do tempo estipulado para a realização da entrevista, realizar apontamentos pertinentes que permitam clarificar alguma dúvida que possa surgir após o término da entrevista.

Criticamente, considero que o guião de entrevista construído pelo grupo Smashing Pumpkins apresenta algumas falhas, nomeadamente a não explicitação e não articulação das questões com os respetivos objetivos e temáticas. Mas por outro lado, considero que elaborou questões muito pertinentes, tendo-as dividido em grupos de temáticas, uma organização útil na aplicação e na análise das informações obtidas na aplicação da entrevista.

A entrevista

A escolha das técnicas e instrumentos de recolha de dados é crucial para a qualidade e o êxito da investigação, por um lado. O investigador é o outro elemento chave na investigação, segundo Erickson (2012, p.71), nomeadamente o seu conhecimento, a sua capacidade e a sua experiência no processo de recolha de dados.

Neste post, irei debruçar-me sobre a entrevista que Bisquerra (2012, p.72) define como sendo “uma conversação entre duas pessoas, iniciada pelo entrevistador, com o propósito específico de obter informação relevante para uma investigação.”

Segundo Bogdan & Biklen (2012, p.73), as entrevistas diferenciam-se de acordo com o seu grau de estruturação:

Entrevistas estruturadas

– seguem integralmente um roteiro estabelecido,

– o investigador é um mero compilador de dados,

– o investigador tem a responsabilidade de criar um ambiente que promova as respostas do entrevistado.

Entrevistas não estruturadas

– o processo de recolha é muito mais dinâmico, flexível e aberto, não estandardizado,

– o investigador leva o entrevistado a falar sobre uma área de interesse e, ao longo da conversação, vai explorando com mais profundidade e, sempre que necessário, norteia o entrevistado para a temática em discussão.

Entrevistas semiestruturadas

– a existência de um documento de “perguntas-guia”, carateriza este tipo de entrevista que se situa entre as entrevistas estruturas e as entrevistas não estruturadas,

– o investigador cria condições para que o entrevistado fale abertamente, contudo sempre que este se desvia da temática a ser abordada, o investigador redireciona, de forma natural, a entrevista para que os seus objetivos sejam alcançados.

As entrevistas também podem variar, segundo o número de sujeitos entrevistados, nomeadamente se a entrevista ocorre individualmente ou em grupo, sendo que nesta última, o objetivo é a discussão de uma temática/problemática por um grupo de pessoas em simultâneo.

Relativamente aos temas em análise, identificam-se  os seguintes tipos de entrevistas:
– Entrevista de Controlo (por exemplo, entrevistas pós-experimentais que verificam a verossimilhança da situação experimental; apesar da entrevista aplicada ser do tipo estruturada, não é o instrumento de recolha de dados principal),
– Entrevista de Verificação (da evolução de um determinado domínio da investigação, podendo ser realizadas entrevistas do tipo estruturadas ou semiestruturadas),
– Entrevista de Aprofundamento (de temas que não considerados suficientemente explicados/explorados, através das entrevistas semiestruturadas ou não estruturadas),
– Entrevista de Exploração (de um domínio que o investigador não conhece/domina; aplicação na entrevista não estruturada).

O guião numa entrevista apresenta-se como o fio condutor da mesma, por isso, deve-se ter em consideração alguns pontos fundamentais na sua elaboração:

– elaborar perguntas de acordo com os objetivos da investigação, a amostra e o perfil do entrevistado, e o meio de comunicação utilizado na realização da entrevista,

– considerar as expectativas do entrevistador,

– evitar influenciar as respostas,

– apontar alternativas para eventuais fugas à(s) pergunta(s),

– estabelecer o número de perguntas e proceder  à sua ordenação, dentro de cada dimensão,

– utilizar um vocabulário claro, acessível e rigoroso.

Na construção das questões, deve-se ter em consideração os seguintes pontos:

– adequação aos objetivos da investigação,

– adequação das perguntas aos entrevistados (claras, acessíveis, rigorosas),

– recurso a questões abertas e fechadas,

– adequação do número total de questões,

– adaptação da sequência das perguntas,

– se adequado, anotação de palavras-chave para as respostas

O guião de entrevista deve apresentar uma boa apresentação gráfica, nomeadamente:

– redação do cabeçalho com identificação,

– incluir uma apresentação sucinta da entrevista, incluindo os objetivos,

– formatação cuidada do documento.

O espaço físico e o espaço temporal também são pontos a ter em conta na elaboração do guião da entrevista.

Depois de elaborado, o guião de entrevista deve ser analisado e criticado por especialistas e/ou entrevistados-teste, de forma a, posteriormente, se proceder à validação do respetivo guião.

Fontes:

Morgado, J. C. (2012). O Estudo de Caso na Investigação em Educação. Santo Tirso, Portugal: Defacto.

Quivy, R. e Campenhoudt L. (1992). Manual de Investigação em Ciências Sociais. Lisboa, Portugal: Gradiva.